A origem e a perpetuação da cultura do estupro na sociedade

Antes do agressor ser um estuprador ele é homem. E em algum momento da vida ele aprendeu que era correto agredir a mulher


Segundo o dicionário Aurélio, cultura é o “complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade”. Tomando por base tal definição, seria a cultura do estupro um costume ensinado aos homens?

O caso da adolescente carioca que sofreu um estupro coletivo cometido por 33 homens em maio deste ano ganhou uma grande repercussão nacional. Após tal tragédia, muito se comentou sobre a cultura de estupro e, como esperado, o assunto ganhou vários lados e gerou polêmica. A cultura do estupro é perigosa – por centenas de motivos – mas também por ser algo muito implícito.

Quantas vezes se leu absurdos do tipo “a culpa da pedofilia é dessa molecada que fica gostosa cedo demais”. Ouso dizer que quase nunca. E por que ainda se insiste no pensamento de que alguém “pediu” para ser estuprada porque estava com roupa curta ou em determinado lugar com certas pessoas?

Onde se ensina a uma mulher que ela não deve sair de roupa curta para não ser assediada no lugar de passar ao homem a ideia de que, independente da vestimenta, se deve respeitar o espaço e corpo do próximo; isso é cultura de estupro.

Quando se compactua, por exemplo, de pensamentos que defendem a divisão das mulheres em categorias como as que “merecem” X as que “não merecem” ser violentadas; isso é cultura de estupro.

Cada vez que se fala “se ela estivesse em casa estudando, isso não teria acontecido” no lugar de pensar “se ele soubesse respeitar as mulheres, não haveria violência”; isso é cultura de estupro.

Imagem de homem tentando agredir mulher

Foto: Depositphotos

Os dados feitos pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, apontam que por medo e vergonha apenas 10% dos casos de violência sexual são denunciados e, mesmo assim, só em 2014 foram registrados mais de 50 mil casos, em que 70% das agressões são cometidas por parentes e conhecidos da vítima: isso é cultura de estupro.

Todo homem é um estuprador em potencial?

O estupro é algo abominável, mas antes do agressor atuar como monstro ele é um homem. E em algum momento da sua vida ele aprendeu que era correto agredir uma mulher e força-la ao sexo.

Desde comerciais de desodorante a letras de músicas, a mulher é objetificada. Mesmo que diretamente esse pensamento nunca tenha sido ensinado, aprende-se que desde cedo a mulher foi feita para servir e o homem para ser servido.

Obviamente existem diversos casos de homens estupradores que são mentalmente desequilibrados, mas você realmente acha possível que, por exemplo, os que participam de agressões coletivas sofriam, todos, algum tipo de distúrbio? Ou será que eles viviam em um ambiente que foi ensinado que, dependendo do “tipo” de mulher, não há problema em dopá-la e penetrá-la sem o consentimento dela. Desvio de conduta e de caráter irá sempre existir, mas quantos casos de mulheres que estupram homens são noticiados?

Castração química é a solução?

A castração química é uma forma temporária de redução da libido, através de medicamentos hormonais. Mas o estupro não é apenas sobre sexo é, principalmente, sobre poder e dominação. Pois um homem que acha quem uma mulher está pedindo para ser estuprada vai fazer isso seja com o pênis ou, por exemplo, com qualquer objeto semelhante.

É preferível sair na rua segura por saber que seu estuprador terá a libido anulada por algum tempo ou ter a certeza que ele, se quer, existe? Mas é muito mais fácil colocar a culpa na vítima ou tentar ações que funcionem parcialmente do que tentar lutar para mudar o pensamento de toda uma sociedade ainda em determinadas situações, machista.


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