Colocação pronominal

A língua portuguesa possui vários aspectos que necessitam de determinado aprofundamento para melhor compreensão. Entenda sobre a colocação pronominal!


Em seu poema intitulado “Pronominais”, o grande poeta brasileiro Oswald de Andrade aborda a questão da colocação pronominal, que provoca muitas dúvidas entre os falantes do nosso idioma.

Leia o poema a seguir:

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

(Oswald de Andrade)

Colocação pronominal

Imagem: Reprodução/ internet

De acordo com a gramática normativa, os pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) devem ser colocados em determinada posição na frase, de acordo com algumas regrinhas que devemos seguir.

De acordo com o gramático Cegalla, os pronomes oblíquos átonos podem ser: proclíticos (antepostos ao verbo), mesoclíticos (intercalados no verbo) e enclíticos (pospostos ao verbo). Veremos cada um desses casos detalhadamente.

Próclise

Devemos empregar a próclise (pronome átono antes do verbo) nos seguintes casos:

1) Palavras de sentido negativo

Confira os exemplos a seguir, retirados da “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”, de Domingos Paschoal Cegalla:

-Nunca se queixa nem se aborrece.
-Ninguém lhe resiste.
-Nenhum lugar nos agradou.

2) Pronomes relativos

Exemplos:

-“Só então Luísa adivinhou o que se teria passado.” (Fernando Namora)
-Há pessoas que nos querem bem. Nenhuma que nos odeie.
-O aluno que me mostrou o filme não veio hoje.

3) Conjunções subordinativas

Exemplos:

-Quando nos viu, afastou-se.
-Vamos estabelecer regras, conforme lhe avisaram.
-Disse-me que não iria à festa, ainda que a convidassem.

4) Certos advérbios

Exemplos:

-Sempre me lembro dela.
-Indaguei como se chega lá.
-Aqui se trabalha, lá se fala da vida alheia.

Atenção! Em sua obra “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”, o professor Domingos Paschoal Cegalla afirma que, se houver pausa depois do advérbio, este deixará de atrair o pronome, prevalecendo a ênclise. Exemplo: “Depois, encaminhei-me para ele.” (Said Ali)

5) Os pronomes indefinidos tudo, nada, pouco, muito, quem, todos, alguém, algo, nenhum, ninguém, quanto.

Exemplos:

-Ignoro de quem se trata.
-Algo o incomoda?
-Nada lhe agradava ali.

6) A palavra “só”, no sentido de “apenas”, “somente”, e as conjunções coordenativas alternativas ou…ou, ora…ora, quer…quer.

Exemplos:

-Só se lembram de nós quando estão sem dinheiro.
-Ou ele se corrige ou lhe voltarão as costas.
-Quer nos atacasse, quer se escondesse, o tigre era sempre um perigo.

7) Orações optativas cujo sujeito estiver antes do verbo

Exemplos:

-Deus o guarde!
-A terra lhe seja leve!

8) Orações exclamativas iniciadas por palavras ou expressões exclamativas

Exemplos:

-Como te iludes!
-“Que de coisas me disse a propósito da Vênus de Milo!” (Machado de Assis)

9) Nas orações interrogativas iniciadas por advérbio ou pronome interrogativos

Exemplos:

-Quando me visitas?
-Acaso lhe faltam recursos?

Mesóclise

Segundo Cegalla, a intercalação das variações pronominais átonas – mesóclise – ocorre somente quando o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito, desde que antes do verbo não haja palavra que exija a próclise.

Confira os exemplos a seguir, também retirados da “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”:

-Por este processo, ter-se-iam obtido melhores resultados.
-“Sua atitude é serena, poder-se-ia dizer hierática, quase ritual.” (Raquel de Queirós)
-Realizar-se-á, em maio, uma reunião de prefeitos.

Se houver palavra atrativa, impõe-se a próclise. Observe os seguintes exemplos:

-Não lhe pedirei nada.
-Ninguém se importaria.

Ênclise

A ênclise é utilizada nos seguintes casos:

1) Nos períodos iniciados pelo verbo (que não seja o futuro)

Exemplos:

-“Vai-se a primeira pomba despertada!” (Raimundo Correia)
-Dê-me o estojo.

2) Nas orações reduzidas de gerúndio, quando nelas não houver palavras atrativas

Exemplo:

-“O anão chegara-se a Inocência, tomando-lhe uma das mãos.” (Visconde de Taunay)

3) Nas orações imperativas afirmativas

Exemplos:

-Procure suas primas e convide-as.
-“Romano, escuta-me!” (Olavo Bilac)

4) Junto ao infinitivo não flexionado, precedido da preposição “a”, em se tratando dos pronomes “o”, “a”, “os”, “as”

-Começou a maltratá-la.
-Todos corriam a ouvi-lo.

 

*Débora Silva é graduada em Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa e suas Literaturas).


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