A diferença entre antítese e paradoxo

As figuras de linguagem são recursos linguísticos que dão mais força, colorido, intensidade e beleza à mensagem transmitida em um texto. De acordo com…


As figuras de linguagem são recursos linguísticos que dão mais força, colorido, intensidade e beleza à mensagem transmitida em um texto. De acordo com o gramático Domingos Paschoal Cegalla, elas são divididas em três tipos: figuras de palavras (ou tropos), figuras de construção (ou de sintaxe) e figuras de pensamento.

Algumas figuras de linguagem possuem significados ou usos bastante próximos, o que provoca muitas dúvidas entre os estudantes. Esse é o caso da antítese e do paradoxo que, por tratarem de elementos opostos, costumam ser confundidos. Por este motivo, é importante esclarecermos as diferenças entre essas duas figuras de linguagem.

Antítese

A antítese é um poderoso recurso de estilo e, de acordo com Cegalla, esta figura de linguagem consiste na aproximação de palavras ou expressões de sentido oposto.

Confira alguns exemplos a seguir, retirados da “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”:

A diferença entre antítese e paradoxo

Imagem: Estudo Prático

“Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um tempo, esplendor e sepultura.” (Olavo Bilac)
“Como eram possível beleza e horror, vida e morte harmonizarem-se assim no mesmo quadro?” (Érico Veríssimo)
“A areia, alva, está agora preta, de pés que a pisam.” (Jorge Amado)

Observe que, no mesmo contexto, foram empregadas palavras que possuem sentidos opostos: vida x morte; beleza x horror.

Paradoxo

O paradoxo utiliza-se, intencionalmente, de um contrassenso. Assim sendo, a contradição é a marca mais forte desta figura de linguagem, também denominada oximoro.

Confira o exemplo a seguir:

“Dor, tu és um prazer!” (Castro Alves)

A frase de Castro Alves mostra a dor, naturalmente ruim, associada à ideia de prazer. Observe que ocorre a união de ideias contraditórias, transformando-as em uma única.

Veja outros exemplos a seguir, retirados da “Novíssima Gramática da Língua Portuguesa”:

Feliz culpa, que nos valeu tão grande Redentor!” (Santo Agostinho)
O que não tenho e desejo é que melhor me enriquece.” (Manuel Bandeira)

A diferença

Qual é, então, a diferença entre antítese e paradoxo? Como pudemos observar nas definições e exemplos anteriormente expostos, temos que, na antítese, as ideias contrárias estão, de fato, em oposição. Já no paradoxo, a aproximação de palavras opostos causa uma incoerência, uma contradição.

Antítese e paradoxo na literatura

As figuras de linguagem são muito comuns em poesias. Em “Soneto da Separação”, um dos mais populares de Vinicius de Moraes, podemos observar a presença de antíteses. Leia o poema a seguir:

Soneto da separação 

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Já o famoso poema de Luis Vaz de Camões é um exemplo de paradoxo encontrado na literatura. Leia o poema a seguir:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

*Débora Silva é graduada em Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa e suas Literaturas).


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