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Anticomunismo

Os discursos do anticomunismo não são algo recente na história política mundial, nem tampouco no contexto brasileiro. Expressivos no contexto da Ditadura Civil-Militar brasileira e na instauração do regime varguista do Estado Novo (pelo suposto Plano Cohen), os discursos contra uma suposta ameaça comunista retornam no período contemporâneo diante da crise política vivida no Brasil. No entanto, o anticomunismo vai mais no sentido de uma não aceitação dos ideais comunistas do que propriamente como um movimento político.

O que é o Comunismo?

O Comunismo é uma teoria que prega a libertação do proletariado, ou seja, da classe social que retira sua subsistência através da venda de sua força de trabalho, e não do lucro advindo do capital. Deste modo, o Comunismo tem como base a conquista da propriedade coletiva dos meios de produção. Segundo a teoria, o Comunismo poderá ser alcançado pelas mãos dos trabalhadores, através de uma Revolução, com a tomada do poder pelo proletariado e a alteração das estruturas políticas, econômicas e sociais.

Investidas anticomunistas são mais comumente vistas e percebidas em contextos de desestabilização social

O anticomunismo reapareceu com os protestos de 2013 no Brasil (Foto: depositphotos)

Comunismo e Socialismo

Existem contradições e confusões quanto ao ideário do Comunismo, especialmente confundindo-o com o Socialismo, o qual esteve presente no mundo, em seu contexto político e prático principalmente no contexto da Revolução Russa e da criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

As quais foram diluídas com a queda do Socialismo representando pelo processo decorrido pela Queda do Muro de Berlim (1989) e a unificação da Alemanha, bem como a dissolução do Estado Soviético e a abertura do bloco socialista do Leste Europeu e China (a partir de 1991). No entanto, o Comunismo possui uma condição ideológica diferente do Socialismo, sendo caracterizado basicamente pelo preceito das condições de libertação do Proletariado.

Visão do Socialismo

Entende-se que o Socialismo seja uma ponte para se chegar ao Comunismo, sendo que em uma sociedade socialista ainda persistam elementos de desigualdade social, os quais são uma herança da sociedade capitalista existente anteriormente. Portanto, no Socialismo os homens ainda se encontram em um contexto de rotina do trabalho e o Estado continua existindo como autoridade e poder.

Deste modo, o Socialismo ainda não é considerado como o sistema ideal, mas sim um processo de transição ao patamar de igualdade total, que seria a constituição do Comunismo, com a completa dissolução das desigualdades sociais, e com o trabalho como atividade livre e o fim do Estado. Neste regime, as leis escritas serão abolidas, e todo aparato repressivo será eliminado.

Apenas a opinião pública agirá como forma de controle social, sendo que até mesmo os partidos políticos deixarão de existir. Segue abaixo um esquema de como ocorreria essa transição do Capitalismo, chegando ao Socialismo através da Revolução até atingir ao Comunismo.

Imagem: Reprodução/HARNECKER; URIBE,1981)

O Anticomunismo

Como todas as propostas de mudança, ainda mais quando pouco estudadas ou conhecidas, o Comunismo também enfrenta investidas preconceituosas e tentativas de deslegitimação de seus ideais. Tanto as propostas do Comunismo, como também seus teóricos, historicamente são vitimados por discursos que chegam ao ódio e violência.

Em contextos de crises, sejam elas sociais, econômicas ou políticas, os intentos anticomunistas são reavivados e intensificados, e ainda mais aflorados especialmente pelos recursos midiáticos. Em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, o Comunismo é tratado como algo negativo por boa parte da população.

Assim, entende-se que o Anticomunismo seja uma doutrina que se define por oposição ao comunismo, a qual é intensificada com a revolução bolchevista de outubro de 1917, na Rússia. Sendo que as investidas anticomunistas são mais comumente vistas e percebidas em contextos de desestabilização social, quando o descontentamento com as condições sociais, políticas e econômicas fazem ressurgir as discussões sobre uma possível mudança de sistema e organização da sociedade.

Também é neste momento que os discursos contra o Comunismo são despertados e instigados na população, de modo que o sistema capitalista é extremamente vantajoso para a parcela da população que lucra com a exploração do trabalho. De certo modo, o anticomunismo não se opõe apenas ao ideário comunista, mas acaba por contrariar a qualquer mudança, seja ela de cunho social e econômica que suponha uma maior abertura da distribuição do capital, como foi presenciado mais recentemente no Brasil e alguns países do Ocidente Europeu. 

O “Medo Vermelho” no Brasil

No Brasil, assim como em outras partes do mundo, o Anticomunismo se intensificou nos momentos de maior tensão social, como no contexto da Ditadura Civil-Militar no país a partir de 1964. Mas mesmo anteriormente a este regime político houveram diversas investidas anticomunistas em períodos considerados democráticos como o de 1947 a 1964, no exemplo, sendo que neste período o próprio Partido Comunista Brasileiro teve seus direitos cassados, deste modo, atuando de forma clandestina, além do mesmo partido ter sido perseguido ao longo da ditadura varguista do Estado Novo (1937-1945), enquanto que em décadas anteriores (anos 10, 20 e 30 do século XX) qualquer agitação ou levante de trabalhadores era violentamente contida pelo Estado, este conduzido pelas oligarquias cafeicultoras.

Saiba mais: História do comunismo [3]

Com o desenvolvimento da economia brasileira, principalmente nas décadas de 1950 e 1960, os movimentos sociais brasileiros vinham conquistando muitos direitos para os trabalhadores, o que não se configurava como uma revolução, mas que conferia mudanças no sistema político e econômico do país.

Essas conquistas incomodavam os proprietários do campo, os industriais e às multinacionais instaladas no país, os quais lucravam com a exploração do trabalho. Assim, os movimentos sociais, por serem considerados naquele momento desestabilizadores da ordem vigente, eram denominados de “perigosos”. Esses trabalhadores que lutavam por seus direitos e melhores condições de trabalho já eram vistos como difusores do “comunismo”, embora por vezes nem soubessem o que esse conceito significava.

Movimentos sociais=comunismo?

Assim, os movimentos que se estabeleceram naquele momento, mesmo contra os ditames da Ditadura no Brasil, eram vistos com preconceitos por serem considerados como “comunistas”. Esses discursos ressurgiram com força com os movimentos populares no Brasil em momentos mais recentes, com os protestos que estão ocorrendo desde 2013 principalmente, e onde as pessoas vão às ruas para manifestar seu descontentamento com a situação do país. No entanto, surge concomitantemente também uma confusão quanto aos ideais do Comunismo, quando questões mais amplas do social são consideradas como de viés comunista, quando na verdade são apenas inquietações diante da realidade, e não necessariamente pilares da revolução.

Saiba mais: Comunismo cristão [4]

Os discursos anticomunistas são preposições sem grandes fundamentos lógicos, porque não há uma real ameaça de transformação do sistema no Brasil. Assim, o “Medo Vermelho” parece enquadrar-se mais como uma fuga de resolução dos problemas sociais, políticos e econômicos no Brasil, do que necessariamente como uma investida contra uma ameaça real diante de algo que está efetivamente se concretizando no país.

Um exemplo disso é que em dois momentos históricos diferentes, um durante o contexto da Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964) e outro em um momento mais recente nas manifestações (2015), as faixas (imagens abaixo) trazem um mesmo discurso, o qual não possui bases teóricas concisas, pois a realidade cubana não tem qualquer relação com o desenvolvimento histórico e social do Brasil, sendo que não se pode falar que Cuba é efetivamente comunista, de modo que alguns autores a denominam como um “Capitalismo de Estado”.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

 

Referências

» CANARY, Henrique. O que é… conceitos fundamentais de política, economia e sociedade. São Paulo: Editora José Luis e Rosa Sundermann, 2012.

» ENGELS, Friedrich. Princípios do Comunismo. Liga dos Comunistas. 1847. Disponível em: < http://proletariosmarxistas.com/docs/Publicacoes%20diversas/Principios%20do%20Comunismo.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2017.

» HARNECKER, Marta; URIBE, Gabriela. Socialismo e Comunismo. Cadernos de Educação Popular. São Paulo: Global Editora, 1981.