Esquerda e direita na política

Grupos de direita são mais conservadores enquanto que os de esquerda são vistos como mais liberais

As referências sobre Esquerda e Direita na política são comuns nos discursos da população, especialmente em momentos de crises econômicas, políticas e sociais, quando as discussões sobre posicionamento político se tornam ainda mais acaloradas. No entanto, nem todas as pessoas sabem exatamente a que se referem estas noções em relação ao contexto político, fazendo com que surjam várias suposições pautadas em senso comum.

Reflexões sobre posicionamento político

As preferências, ou referências, políticas possuem um espectro ideológico embutido nelas, de modo que segundo as concepções que os sujeitos adotam e defendem são enquadrados em um ou outro conceito. No entanto, as denominações políticas nem sempre estão tão claras, de modo que embora o sujeito concorde com apenas parte do pensamento de uma linha política, acabe sendo definido como seguidor de uma corrente de pensamento política específica.

Os seres humanos são por natureza seres políticos, no entanto, as contradições e conflitos da “politicagem” afastam muitas pessoas do âmbito das discussões políticas. Ainda assim, a ampla maioria das pessoas tem condições de explicitar seus interesses e pensamentos quando o assunto é política.

Grupos de direita são mais conservadores enquanto que os de esquerda são vistos como mais liberais

Posicionamentos políticos costumam se separarem como sendo de esquerda ou de direita (Foto: depositphotos)

Divisões do pensamento político

Embora existam várias concepções políticas, os ideários dos sujeitos políticos são comumente divididos em dois grandes agrupamentos, sendo eles de um lado um grupo considerado como maisliberal” e de outro lado um grupo cujas concepções são consideradas de cunho mais “conservador”.

No entanto, outras definições buscam enquadrar esses grupos segundo alguns critérios, afirmando que o grupo liberal, por exemplo, é socialista ou comunista, enquanto o grupo conservador é capitalista, em uma clara tentativa de definir segundo preceitos políticos as convicções sobre sistemas econômicos e sociais que os sujeitos possuem.

No Brasil, estes agrupamentos recebem ainda outra denominação, de modo que os sujeitos cujas ideias são mais liberais são chamados de “esquerda” e os sujeitos que preservam um pensamento mais conservador são chamados de “direita”. Essas definições não se encerram em si mesmas, de modo que existem ainda agrupamentos que são denominados de “Centro”, com posições centradas ou variando mais para esquerda ou direita, dependo de suas convicções políticas.

Origem da divisão Esquerda – Direita

A denominação de Esquerda e Direita em âmbito político tem como base os acontecimentos na França ainda no século XVIII, quando os membros da Assembleia dos Estados Gerais sentaram em lados opostos em relação ao Rei, sendo que a nobreza se sentou ao seu lado direito, enquanto o Terceiro Estado (aqueles que não pertenciam aos nobres) sentou-se do lado esquerdo deste.

Essa disposição continuou ainda no Império de Napoleão Bonaparte, quando a divisão dos membros da Assembleia Nacional perdurou em agrupamentos partidários ao Napoleão ao seu lado direito, e simpatizantes de uma revolução ao seu lado esquerdo. Essa ideia se difundiu pelo mundo, chegando à diversos países, como é o caso do Brasil, onde grupos com pensamento mais próximo aos governos conservadores são denominados de “direitistas”, enquanto aqueles que defendem uma transformação social são definidos como “esquerdistas”.

Ainda assim, são denominações bastante genéricas, pois não consideram a diversidade do pensamento político, definindo todo pensamento social em apenas dois agrupamentos.

Esquerda e Direita no contexto brasileiro

Embora sejam definições genéricas diante da complexidade das discussões políticas, pode-se entender que a Esquerda possui um contexto mais liberal diante das questões culturais e das liberdades individuais, além disso, as pessoas que possuem afinidade de pensamento com a Esquerda seriam aquelas que defenderiam um maior ou total controle do Estado sobre a economia, com a intervenção estatal nos variados setores da vida social, prezando pela igualdade em todos os aspectos, tanto econômicos, quanto morais.

Já os indivíduos que possuem afinidade com a Direita, seriam aqueles que prezam pela liberdade do mercado, com menor intervenção do Estado nas questões econômicas, afirmando que os sujeitos possuem direitos individuais e poderes contra os ditames e intervenções do Estado. Além disso, para a Direita, os valores morais e religiosos devem estar priorizados diante de mudanças sociais, assim, são considerados mais conservadores em variados aspectos.

Sujeitos de direita

Em termos gerais, entende-se que na Direita estariam contidos aqueles sujeitos que possuem como base de pensamento e prioridade a manutenção de uma sociedade capitalista e considerada teoricamente como democrática. Sendo que estes sujeitos têm como luta a manutenção da ordem social e do progresso por meio do capitalismo.

Sujeitos de esquerda

Já os sujeitos da Esquerda seriam aqueles que estariam dispostos a arriscar a ordem social em nome da justiça, visando transformações sociais que permitissem uma maior igualdade na sociedade. Para a Esquerda, o Estado possui papel ativo em relação ao fim das desigualdades existentes na sociedade, tendo como função a intervenção junto aos problemas sociais.

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Agrupamentos políticos segundo Norberto Bobbio

Agrupamentos de direita

Para um dos mais influentes pensadores políticos do mundo, o Filósofo e Cientista Político italiano Norberto Bobbio, os agrupamentos da Direita percebem as desigualdades sociais como efeitos inevitáveis da própria humanidade, sendo que mesmo estas desigualdades são necessárias para manutenção do capitalismo, pois é a força de trabalho disponível que possibilita a perpetuação deste sistema. Assim, projetos governamentais como o “Bolsa Família”, por exemplo, seriam uma excessiva intervenção do Estado na vida dos sujeitos, tornando-os acomodados aos benefícios, fazendo com que estes não reajam e modifiquem suas próprias condições sociais.

Agrupamentos de esquerda

Já os agrupamentos da Esquerda seriam aqueles que contestariam essa ideia e o próprio sistema capitalista, lutando por justiça social e uma maior igualdade em todos os sentidos, tanto em relação ao gênero, quanto às possibilidades de ascensão por meio do estudo. Neste sentido, estes sujeitos têm como pautas de luta uma melhor distribuição da renda, prezando pela igualdade de condições e acesso aos recursos e bens. Assim, projetos como o “Bolsa Família” seriam boas estratégias para permitir que as pessoas possam ter acesso pelo menos ao básico para sobreviver, enquanto lutam pela melhoria de suas condições de vida. Do mesmo modo, políticas como cotas no mercado de trabalho e nas universidades, por exemplo, são medidas governamentais bem aceitas de modo geral pelos grupos de Esquerda.

Talvez de modo geral, a maior e mais significativa diferença entre os grupos de Esquerda e de Direita seja o papel do Estado junto ao contexto social, sendo que enquanto o primeiro defende que o Estado tenha responsabilidades junto a justiça social, o segundo defenda uma mínima intervenção e uma maior regulamentação pelo próprio mercado, segundo preceitos do capitalismo.

Referências

» BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

» SILVA, Gustavo Jorge. Conceituações teóricas: esquerda e direita. Revista Humanidades em diálogo, v. 06, 2014. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/humanidades/article/view/106265/104928>. Acesso em 25 jul. 2017.

Sobre o autor

Graduada em Geografia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Especialista em Neuropedagogia pela Faculdade Alfa de Umuarama (FAU) e Mestre em Geografia (Unioeste)