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O Império Muçulmano

Os muçulmanos influenciaram na criação da língua portuguesa, acrescido o advento da conquista da Península Ibérica

No século (VII a.C), a Península Arábica foi cenário povoado por diversas tribos, clãs, seguidores de uma religião politeísta (crenças em vários deuses). O líder religioso, representante de Deus na terra era Maomé, responsável por difundir uma fé unificadora entre o povo árabe, sua importância persiste até os nossos dias.

Civilização Sarracena

“Conquistada a Espanha, Muça… dividiu o território da Península entre os militares

que vieram à conquista, da mesma maneira que entre eles distribuíra os cativos e os

demais bens móveis arrecadados como presa. Então deduziu o quinto das terras e dos

campos cultivados, do mesmo modo que deduzira antes o dos cativos e objetos

móveis…Quanto aos outros cristãos que estavam em seus lugares inacessíveis e nos

montes elevados, Muça…deixou-lhes os seus bens e o uso da sua religião, mediante o

pagamento de um tributo…”

(MOZAINE, Mohamed ibne. Século  XI .In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa, Plátano, 1977.v.1.), p. 41-42.)

Século VII Arábia

A nação sarracena voltada para uma crença religiosa, passava por mudanças sociais e intelectuais inerentes ao continente europeu, principalmente entre os séculos 630 e 1300 definindo sua cultura e propagando-a a inúmeros povos da Ásia e África.

Duas Arábias

O Império Muçulmano e suas influências

Os muçulmanos estavam se propagando a inúmeros povos da Ásia e África (Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons)

A Arábia é uma ilha, o deserto ao norte justifica seu isolamento da Mesopotâmia e das nações costeiras do Mediterrâneo oriental. Início do século VII a população arábica passava por uma divisão territorial:

Arábia Desértica: Habitada por povos nômades, os beduínos (tribos do deserto):

  • Vagavam pelas areias do deserto;
  • Viviam sob mudanças climáticas de variadas, sem ponto fixo de habitação;
  • Dedicavam-se ao pastoreio;
  • Lutavam entre si pela posse de oásis (pequenas regiões férteis no deserto);
  • O camelo era o meio de transporte dos grupos;
  • Alimentavam-se de ovinos e caprinos.

Arábia Feliz: Habitada por povos sedentários (clãs fixos numa região):

  • Cultivavam uma economia agrícola e mercantil;
  • Seus maiores centros comerciais eram nas cidades de Meca e Yathrib;
  • As cidades de Sabá, Síria e Fenícia constituíam um polo de circulação de mercadorias estruturado;
  • Comercializavam ouro, escravos e marfim, especiarias e tecidos;
  • Produziam com sucesso aromas, incensos, tecidos, cereais, azeite e armas;
  • A troca da moeda se fazia por meio do ouro bizantino e da prata sassânida.

Organização política

A comunidade nômade e o clã (conjunto de famílias com ancestrais comuns) exerciam as funções do Estado, não havia um governo centralizado, mas havia um politeísmo fanático. Por volta do século VI, o desenho da sociedade sofreu mutações, formou-se uma aristocracia (classe privilegiada da sociedade) proprietária de rebanhos, circulante dos meios sociais em destaque, sem limites de gastos, denominada aristocracia urbana.

Organização social

A crença dos povos árabes era de forma “politeísta”. Alá era o principal Deus, embora adorassem inúmeros símbolos representativos da força divinizada. O centro espiritual dessa religião pertencia a um santuário na cidade de Meca, em forma cúbica, lá estava, a Caaba, dentre os signos sagrados, encontrava-se também a Pedra Negra (presente celestial). Os responsáveis pela segurança e integridade do templo e seus visitantes era a tribo coraixita.

Maomé e a unificação religiosa

Em meio a uma Arábia fragmentada politicamente, ao mesmo tempo contemplativa de vários ícones religiosos, surgia uma figura única, um árabe de Meca, Maomé, membro de um clã da tribo coraixita.

Por volta de 570 nascia o futuro profeta, fundador da nova crença, Muhammad (louvado) traduzido para o português – Maomé. Sua infância é tida no deserto, aos cuidados de uma ama, viveu como um pobre, quando jovem assumiu a posição de pastor de carneiros. Iniciou sua pregação com duras críticas à aristocracia, conviveu com judeus e cristãos, bases de influências religiosas, tornou-se popular por:

  • Meditava, pregando a palavra por toda Meca;
  • Exercia com austero empenho retiros, tinha visões e fazia revelações;
  • Combatia a casta privilegiada;
  • Repudiava as guerras em nome de Deus;
  • Identificava-se como enviado de Deus para mostrar o caminho da salvação para o povo árabe.

Em 622, a população resistiu à uma religião monoteísta, gerando conflitos na cidade, levando o profeta a sofrer uma tentativa de assassinato, provocando sua fuga e de seus adeptos para Yathrib. Em novo território estabeleceu-se, sendo homenageado como governador da cidade Medina (cidade do profeta) com apoio dos beduínos e rejeitados pelos judeus da cidade desencadeou uma guerra contra os inimigos executando mais de 600 judeus. Meca transformou-se no centro religioso da crença monoteísta.

Em 632, Maomé morreu deixando como legado a unificação política e religiosa da cidade. A religião de Maomé contribuiu e ampliou o desenvolvimento histórico do seu povo para o mundo, abrindo a comunicação entre o monoteísmo islâmico e a necessidade de expansão árabe das fronteiras da Índia até a Península Ibérica em 100 anos, finalizando-a no século VIII.

Na sequência, seus seguidores, nomearam o califa (sucessor) Abu Bekr como sucessor, com sua morte, dois novos califas foram escolhidos. Sem pausas, a Síria, a Palestina, a Ásia Menor, a Mesopotâmia, a Pérsia e o Egito foram dominados pelos muçulmanos. No século VIII, o império desintegrou-se em califados independentes em decorrência das diferenças políticos-religiosas.

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As contribuições da civilização muçulmana para o mundo

Até o século XII, os sarraceno lideraram as produções científicas, os muçulmanos destacaram-se:

Ciência

Astronomia; tradução da obra de Ptolomeu (Almagesto); fundação dos observatórios em Damasco, Córdova, Cairo; criação de um calendário modelo; afinidade de inúmeras estrelas, dentre as principais (Aldebarã e Aljenibe).

Matemática

Invenção da álgebra e da trigonometria; propagação do sistema numérico “arábico” (original dos hindus).

Alquimia

Reconhecimento da química em seus vários processos de destilação, filtração e sublimação.

Medicina

Avanço em descobertas como o contágio advindo do solo e da água, doenças como varíola e sarampo.

Literatura

Sob interferência persa, a confecção da mais famosa obra As mil e uma noites.

Pintura

Arabescos, recursos decorativos artisticamente distribuídos.

Arquitetura

Combinações de estilos persas e bizantinos, produziram palácios, mesquitas, bibliotecas, arcos em ferraduras, janelas rendilhadas, mosaicos.

Arte

Tapeçaria, sedas, louças, desenhos de plantas e animais.

Por fim, influenciaram também na criação da língua portuguesa, acrescido o advento da conquista da Península Ibérica (séculos VIII ao XV). A Europa também participou dos benefícios do mundo árabe, cultivando plantas, aprendendo técnicas agrícolas e de irrigação, também os instrumentos como a bússola, o astrolábio, o conhecimento sobre o papel, a pólvora.

Assim, na península arábica, a diversidade é a característica principal dos grupos que a povoam. A língua árabe, difundida pelo mundo, arabizou inúmeras nações, gerando mais arabizados do que árabes natos, povos que passaram a se identificar pela língua, religião e hábitos sociais. Bem como os povos, o léxico sofreu transformações e apresenta hoje variações acentuadas de acordo com o país e o grau para baixo ou para cima de aceitação da coletividade e culturas preexistentes.

Para Refletir: O islamismo, uma miragem geoestratégica?

(…) Após o desaparecimento da URSS, o islamismo militante foi frequentemente apresentado como uma nova ameaça estratégica contra o Ocidente, no sentido de que as redes transnacionais tentavam radicalizar as massas muçulmanas, pregando uma revolução islamita universal para reconstituir a grande comunidade muçulmana. Essa ameaça seria tanto mais séria, porquanto existiria uma “quinta coluna” assimilada aos imigrantes muçulmanos e implantada na maioria dos países ocidentais. O regente seria ou um país (Irã, Sudão) ou uma internacional oculta (assim dominava o tema de um Komintern islamita). (…)

(Anuário econômico e geopolítico mundial. O mundo hoje 95/96. São Paulo. Ensaio, 1996.)

*Maria Inês de Freitas Custódio é Mestre em História Social pela PUC-SP.

Referências

»Mota, Myriam Becho. História: das cavernas ao Terceiro Milênio. Vol.único – 1.ed. –
São Paulo: Moderna, 1997.