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Militarismo na América Latina

Países latinos que passaram pelo militarismo: Argentina, Brasil e Uruguai foram alguns deles

No decorrer do século XX, as movimentações para o desenvolvimento econômico-político dos países latino-americanos percorreram caminhos diferenciados e particularizados de acordo com suas condições naturais e sociais internas:

  • Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador;
  • Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

Este processo de desenvolvimento capitalista contemplou determinantes como uma raiz colonial, práticas políticas instauradas em cada país inerentes ao processo de independência, obstáculos latifundiários e constância de exportação de base agrícola.

Oligarquias ao ciclo militar

O objeto de construção social e a execução do poderio na América Latina reforçavam a estratificação entre a elite agrária e os trabalhadores de base no campo, sem nenhum contrato calcado na instituição democrática, provocando um descaso com a educação, a saúde e com o desenvolvimento da cidadania.

Países latinos que passaram pelo militarismo: Argentina, Brasil e Uruguai foram alguns deles

Os militares eram apoiados proprietários rurais e industriais e também pelo capital internacional (Foto: depositphotos)

Resultado

A dinâmica social e política nesses países era limitada, recusa e dominadora. Diante do quadro, as sociedades urbanas e industriais latino-americanas progrediram tardiamente, destacando-se Argentina, Brasil e México. Na segunda metade do século XX, esses países avançaram no ramo industrial, por dois motivos:

  • Transferência do capital agrícola para a indústria;
  • Troca das importações gerada pela Primeira Guerra Mundial.

Em fins do século XIX a política norte- americana propagava a tutela dos Estados Unidos no continente, em destaque a América Central. Fato propício à intervenção dos norte americanos diretamente nos países centro americanos, protegendo os governos
aliados (casta agrária) e achatando os opositores.

“Os Estados Unidos são felizes ao encorajar e apoias os banqueiros americanos que aceitaram estender as mãos caridosas a esses países para prover sua reabilitação financeira.” 

(Presidente Taft. Discurso no Congresso em 3 de dezembro de 1912.In:SCHILLING, Voltaire. Estados Unidos e América Latina. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984)

“A adesão à Doutrina Monroe pode forçar-nos, ainda que contra a vontade, em casos de má conduta e impotência, a exercer o papel de polícia internacional.”

(Presidente Theodore Roosevelt. IN: RIBEIRO, Darcy. As Américas e a civilização. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1970.)

Militarização

A interferência norte- americana no continente solidificou-se na segunda metade do século XX. Seguida da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) firmou-se a política de intercâmbio e de cooperação intercontinental, embasadas na Doutrina de Segurança Nacional, objetivando preservar o continente dos ataques da União Soviética.

Resultado

Formação das elites militares latino americanas, seus preceitos:

  • Executar o crescimento industrial e da renda dos países subdesenvolvidos, atrelados ao capitalismo internacional;
  • Executar a garantia política e a ideologia interna.

Fronteiras ideológicas

Termo inerente ao contexto sócio-histórico vivido, o “inimigo” passava a ser interno (os revolucionários) e não externos (guerras conservadoras). Desse modo, as atividades militares combateriam a subversão, uma vez que o inimigo era fruto da própria nação, por meio de ideias contrárias aos interesses do capitalismo e da democracia.

Ato Institucional 5 (AI-5)

Cenário político – militar

Ideias formuladas na proteção da segurança nacional permeavam o imaginário da sociedade sob o ataque de golpes e manobras de regimes militares durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, constituindo um “cinturão militar” sob a égide dos Estados Unidos.
Uma das características dos governos militares foi a ausência de diálogo com os demais setores da sociedade.

As discrepâncias entre o regime representativo vigente entre 1945-1964, e o regime militar são evidentes. O mandonismo não é por parte dos políticos profissionais nem do Congresso como instância decisória, o poder emana da alta cúpula militar, representantes do órgãos de informação e repressão do país atrelados ao Estado No Brasil, adotou-se um modelo econômico, de base desenvolvimentista a favor dos grupos:

  • A burocracia técnica estatal – militar e civil;
  • Favorecimento ao empresários estrangeiros;
  • Incentivo aos grandes empresários nacionais.

Resultado

Modernização da economia e concentração de renda nas classes altas e médias, excluindo a possibilidade de elevação sócio-política-econômica da classe menos abastada. O governo militar encobriu da população a violência instaurada contra grupos sociais, de diversas tendências políticas, opositores à ditadura: liberais; socialistas e comunistas.

De outro lado, impunha-se à sociedade a censura aos meios de comunicação, camuflando os variados tipos de torturas nos porões dos órgãos de segurança pública e esconderijos secretos em que torturavam-se os presos políticos. Inerente a este regime
político, grupos opositores, sem saída, lançaram-se na luta armada, reforçando:

  • Engajados em ações de guerrilha;
  • Assaltos a bancos (subsídios para a luta política);
  • Sequestros de diplomatas estrangeiros (utilizados como permuta de colegas presos e torturados nos porões dos órgãos de segurança);

“Sob o lema ‘segurança e desenvolvimento’, Médici dá início, em 30 de outubro de 1969, ao governo que representará o período mais absoluto da repressão, violência e supressão das liberdades civis de nossa história republicana (…) De outro lado, o país
vive a fase do ‘milagre econômico’, dos projetos de impacto e das obras faraônicas (…) num clima de ufanismo insuflado pela propaganda oficial, com a imprensa amordaçada pela censura”.

(Arquidiocese de São Paulo. Brasil: nunca mais. 12. ed. Petrópolis, Vozes, 1985 p.63.)

Os militares eram apoiados pela classe dominante (proprietários rurais e industriais) e também pelo capital internacional, combatiam ardentemente a participação política, a diminuição das desigualdades sociais e econômicas, a justa distribuição de terras e rendas, mantendo assim o status quo que desfrutavam.

A miséria sócio-econômica era visível nas grandes cidades, vítimas da violência, proliferação de favelas, crianças abandonadas pelas ruas, paralelas aos arranhas-céus edifícios de multinacionais, bairros luxuosos protegidos por seguranças particulares.
Contexto semelhante dava-se no Irã, Coréia do Sul, Indonésia, Brasil e muitos outros.

O ‘milagre econômico’ oriundo de associação com multinacionais era palco de autoritarismo, injustiças e dura repressão política a toda oposição, as décadas de 1960 a 1980, tornando a América do Sul a sede de inúmeros governos militares apoiados pelos
Estados Unidos, sustentáculo de perversas formas de autoritarismo.

Argentina: Entre 1966 – 1983 viveu períodos militares autoritários;
Chile: Um golpe militar eliminou o governo socialista de Salvador Allende (1973), assumindo o general Augusto Pinochet (governo sangrento);
Uruguai: Um golpe militar eliminou o presidente Juan Maria Bordaberry (1976) ;
Paraguai: Governo militar de Alfredo Stroessner (1954-1989);
Bolívia: Ascenções e quedas de governos ditatoriais;
Peru: Militares no poder de 1965-1980;
Brasil: Governos militares de 1964-1985.

A partir de 1980, os governos militares declinaram em todo o continente, originando o processo de redemocratização.

Para Refletir: Esperanças e Frustrações

A América Latina continua a viajar em busca da ocidentalização, procurando tornar-se contemporânea do seu tempo. Mas essa é uma viagem acidentada, somando conquistas e frustrações, originalidades e distorções. Uma vez, é a América Latina que acerta e desacerta, desvia-se e encontra-se. Outra, é o Ocidente que se torna próximo e distante, familiar e estranho. Vista assim, em perspectiva ampla, a história da América Latina parece uma história de encontros malogrados, realizações desencontradas. É claro que cada sociedade apresenta uma história peculiar. A época colonial, da conquista à independência, foi muito diversa para cada uma. Os séculos XIX e XX podem ser vistos como amplos cenários de tropelias oligárquicas, ensaios liberais, experiências populistas, reincidências ditatoriais, revoltas populares, revoluções democráticas, experimentos socialistas, golpes contra-revolucionários, estratégias modernizantes. A pluralidade étnica, regional, cultural, sócio-econômica e política está desenhada no mapa de cada nação, com as suas singularidades.

(IANNI, Octávio. Labirinto latino-americano. Petrópolis, Vozes, 1995.)

*Maria Inês de Freitas Custódio é Mestre em História Social pela PUC-SP.

Referências

»Cotrim, Gilberto. Brasil e Geral: volume 3/Gilberto Cotrim. – 1.ed.- São Paulo: Saraiva,
2010.
»Mota, Myriam Becho. História das cavernas ao Terceiro Milênio: volume único;
Myriam Becho Mota, Patrícia Ramos Braick – 1.ed. – São Paulo: Moderna, 1997.