Mesopotâmia: povos, cultura e história

Muito se pergunta sobre a origem dos povos da Mesopotâmia, sobre o seu sistema econômico, político e a religião. Bem como se deram as primeiras formações nesse espaço e por que é uma região que propiciou a origem de povos, como os babilônios, que desenvolveram importantes civilizações na antiguidade.

O conhecimento que obtiveram nos servem até hoje. Foram capazes de aprimorar diferentes áreas como o sistema de escrita muito mais complexo que os existentes até então, e deixaram a sua história registrada de forma mais completa. É por conta desse sistema que podemos compreender grande parte do nosso passado.

Nesse texto vamos entender como a localização da Mesopotâmia influenciou na criação da civilização como entendemos hoje, quais eram os costumes e as crenças desses povos. Acompanhe a seguir:

A Mesopotâmia, a cidade entre rios

Mapa da mesopotâmia

A Mesopotâmia era situada onde hoje está o Iraque (Foto: depositphotos)

Mesopotâmia é o nome de uma região no Oriente Médio (região localizada no continente Asiático, que tem como principal característica sua fronteira entre Europa e a África), localizada entre os rios Tigre e Eufrates.

De acordo com estudos arqueológicos, mais ou menos há 8 mil anos atrás, essa região já estava habitada por alguns grupos humanos. Esses grupos desenvolveram técnicas de cultivo às margens dos rios, aproveitando a fertilidade do solo após os períodos de cheias.

Importância dos rios

É natural que civilizações surjam às margens de rios. Toda a vida, seja ela humana ou vegetal, precisa prioritariamente de água. Para as primeiras sedentarizações humanas isso foi fundamental. Por isso a Mesopotâmia foi uma região tão importante, porque era ali que se encontravam os maiores rios do Oriente Médio, fazendo-se possível a vida de diversos povos.

Os mesopotâmicos, como os sumérios, os acádios e os babilônios, utilizavam técnicas de irrigação de lavoura, ou seja, eram povos sedentarizados que buscavam meios de manter o alimento em qualquer estação do ano.

Eles construíram canos e represas que permitiam o aproveitamento das águas dos rios Tigre e Eufrates para cuidar das plantações.

Curiosidade! A Babilônia foi construída sobre o rio Eufrates e dividida em partes iguais entre as margens esquerda e direita, com aterros para conter as inundações sazonais.

Onde está localizada?

A Mesopotâmia é o espaço físico onde está o atual Iraque. Uma região que abarcou grande diversidade de povos e culturas.

Religião na Mesopotâmia

Arte em bloco de argila da mesopotâmia

As divindades da época eram representações da natureza (Foto: depositphotos)

Nessa época tudo era explicado com base na fé, inclusive a astronomia. As crenças e mitologias dos povos mesopotâmicos são conhecidas como uma das mais antigas da humanidade. A crença fervorosa era uma característica muito importante, se não a mais importante, desses povos.

Os mesopotâmicos acreditavam que a terra era um círculo achatado no qual se incluía o céu, e ao redor do céu-terra existia o mar, que sustentava tudo. Cada cidade tinha a sua própria divindade a ser cultuada em seu respectivo templo. Bem como a terra, o céu, o ar e a água que tinham suas divindades exclusivas.

Principais povos da Mesopotâmia

Suméria

A Suméria se desenvolveu ao sul da Mesopotâmia, próximo ao Golfo Pérsico, onde os rios Tigre e Eufrates desaguam. Em uma região com a característica de planície: terras baixas e planas, no nível do mar.

Essa civilização é a responsável por fundamentar as bases culturais dos povos da Mesopotâmia. Todas as suas características culturais e seu conhecimento desenvolvido foram implementados em toda a região e conduzidos pelos povos sucessores.

Por volta de 5.000 a.C., a revolução urbana dá os seus contornos. Isso começa na Idade dos Metais, onde houve o descobrimento do modo de viver sedentário, bem como da agricultura, metalurgia, aglomeração de pessoas com identificação de povo, conquistas de terras…

Ruínas de antiga cidade da mesopotâmia

Ruínas de antiga cidade da Mesopotâmia (Foto: depositphotos)

Cidades-Estados

É nessa fase que se iniciam as primeiras civilizações, cidades com cerca de 30.000 pessoas. Algumas cidades importantes da Suméria foram Eridu, Ur, Nippur, Uruk e Lagash.

A construção de cada uma dessas cidades teve a sua forma de organização, como se fossem reinos independentes, as chamadas primeiras cidades-Estados. O que quer dizer que cada lugar vai ter o seu aparelho estatal, sua forma política e administrativa, suas próprias leis e próprios exércitos.

Patesi

A Suméria é conhecida pelo seu aglomerado de cidades-Estados, no entanto, não quer dizer que a região era governada por um único rei, ou algo parecido. Eram totalmente autônomas, tendo leis, por vezes, completamente diversas umas das outras. E, por isso, cada cidade era governada por um Patesi, ou Lugal.

Diferentemente do Egito em que os faraós eram deuses, na Mesopotâmia esses reis eram reis-sacerdotes. A população os entendia como caminho para chegar aos deuses, como uma fonte segura de entendimento do sagrado, recebimento das leis e diretrizes para viver.

Se pensarmos bem, essa é uma das primeiras formas de separação do Estado da religião, mesmo que seja uma separação muito primária até então.

Nos nossos primeiros contornos de civilização a categorização de reis como deuses é muito comum, essa distinção de que são intermediários e não absolutamente divinos é uma perspectiva que foge dessas primeiras formações, mesmo que ainda se envolva a religião, a figura do rei em si é apenas um aparato.

Zigurate

Zigurate

As zigurates comportavam desde armazéns a observatórios astronômicos (Foto: depositphotos)

Cada uma dessas cidades-Estados vai contar com um centro econômico e político, chamado Zigurate, uma edificação que concentra essas administrações. Um exemplo imagético desse lugar é o jardim suspenso da Babilônia, que veio depois da Suméria, mas que pode ser entendido como uma representação de Zigurate.

Ele é uma pirâmide templo, um lugar vivo, bem diferente das pirâmides do Egito que são túmulos.

E servia para muitas coisas, tanto que no mesmo local ficavam armazéns e observatórios astronômicos. Esses observatórios eram utilizados pelos reis para conversarem com os deuses, ou seja, os astros.

Matemática

Foram os povos mesopotâmicos os grandes responsáveis pelas descobertas aritméticas. As quatro operações da matemática, a potenciação e a radiciação, círculos trigonométricos, entre coisas como a dominação do tempo.

Foi nesse período que ocorreu o primeiro entendimento de que 1 grau seria 60 minutos, 1 minuto seria 60 segundos, a repartição do dia em blocos de 12 horas e a semana como um período de sete dias. Os nossos primeiros relógios foram encontrados na Suméria, onde também foi desenvolvida a astronomia.

Calendário lunar

Ao contrário do Egito, na Mesopotâmia o calendário não é o solar, cuja marcação é baseada nos movimentos do sol. Os sumérios desenvolveram o calendário lunar. Entendendo as fases da lua e dividindo dias, meses e anos com base nisso.

Astrologia

Os astros são lidos como seres com desejos, são personificados e, por isso, os sumérios consideravam a astronomia como algo divino, como uma leitura dos deuses. Essa mistificação dos astros dará os contornos para uma cultura que conhecemos até hoje, a astrologia. Tanto que o zodíaco e os horóscopos têm origem suméria.

Escrita cuneiforme

Bloco de argila com escrita cuneiforme

A escrita cuneiforme foi desenvolvida pelos povos Sumérios (Foto: depositphotos)

Foi na suméria que a escrita cuneiforme foi criada. O nome é oriundo da ferramenta utilizada para escrever, a cunha. Um objeto de forma triangular que lapidava os símbolos nas pedras ou blocos de argila que eram usados para a escrita.

Na primeira fase, essa escrita era pictográfica, ou seja, formada por desenhos simples. A forma triangular obtida pela cunha representava elementos simples, como: natureza, pessoas, animais, utensílios do dia a dia. E a interpretação era objetiva, por exemplo, quando se tinha a lua desenhada, ela significava simplesmente a lua. Não havia interpretação abstrata.

Com o tempo, essa escrita foi adquirindo características ideográficas, ou seja, alguns símbolos passaram a representar ideias, sentimentos, coisas mais abstratas. Podemos exemplificar com o verbo “proteger” que poderia ser referido a partir do desenho de uma mão.

Ao longo do tempo, as formas da escrita foram ficando mais complexas. Depois de sentimentos e coisas abstratas, começaram a tentar reproduzir o som, é quando a fonética começa a ser desenvolvida e cada símbolo passa a representar um som ou uma sílaba.

Quando essa escrita começa a expressar melhor o que os humanos precisam, outros povos mesopotâmicos, como os babilônios e os assírios, a adotam.

Epopeia de Gilgamesh

Epopeia de Gilgamesh

Fragmento da placa de argila com a Epopeia de Gilgamesh (Foto: depositphotos)

Essa é a primeira grande história contada. Epopeia é um longo poema sobre atos de heroísmo, ou sobre um herói apenas. A epopeia de Gilgamesh narra a história de um dilúvio e a necessidade de se construir um grande barco para a proteção da vida.

Essa chuva teria durado 40 dias e 40 noites e o herói da construção da barca teria soltado um passarinho para saber se as águas teriam baixado e encontrado terra. Na primeira tentativa o pássaro rapidamente volta, na segunda ele volta com um raminho em sua boca, na terceira e última vez, o pássaro não retorna, indicando ter encontrado terra firme.

São elementos similares à história do dilúvio encontrada no antigo testamento. Esse relato sumério é muito mais antigo que o relato hebreu, mas mostra como os hebreus, povos ali também do crescente fértil, aglutinaram a cultura suméria.

Acádios

Outro povo com grande influência na construção das bases culturais da Mesopotâmia são os acadianos. O rei Sargão II foi o conquistador das cidades sumérias, realizando a primeira unificação das cidades-Estados daquela região.

Sargão contava que a sua história começou quando a mãe o teria colocado em uma cesta e deixado no rio, mas que os deuses o haviam escolhido para ser o grande rei conquistador. Outra história também encontrada no antigo testamento. O povo hebreu teve influências muito fortes do povo mesopotâmico e do egípcio.

Amoritas (1º Império Babilônico)

O terceiro grande poder, logo após os sumerianos e os acadianos, foram dos amoritas. Eles também foram os responsáveis pelo império babilônico. Uma das características desse povo foi a criação do Código de Hamurabi e a lei de Talião, que previa “olho por olho, dente por dente”, expressão muito conhecida até os dias de hoje.

Lei de Talião

Essa lei não era igual para todos, ela variava de acordo com a posição social do individuo julgado. O código de Hamurabi reconhecia três posições sociais: o homem nobre, o homem comum e o escravo.

Então, se um homem nobre furasse o olho de outro homem nobre, ele teria seu olho furado, mas se um homem nobre furasse o olho de um homem comum, ele pagaria para o homem comum uma indenização de 500g de prata. O homem comum seria indenizado, jamais tratado em pé de igualdade.

Para os escravos isso ainda era mais diferente. Se um homem nobre furasse o olho de um escravo, ele pagaria metade do valor do escravo para o seu senhor, como forma de indenização por ter avariado a propriedade de outro homem.

Código de Hamurabi

Placa com código de Hamurabi

O Código de Hamurabi está descrito numa placa de basalto preto com cerca de 300 leis (Foto: depositphotos)

O princípio de Talião regeu todo o Código de Hamurabi, mas ele não se limitava apenas às medidas punitivas. O código de Hamurabi é uma pedra de 2,25 metros de altura, onde se encontrava quase 300 artigos de lei: direitos de família, de herança, de punição, de comércio, tributário, tudo isso se encontrava nesse código que abarcava a necessidade social.

Direito ao divórcio

Uma observação rara é que no Código de Hamurabi as mulheres tinham o direito ao divórcio. Se a mulher percebesse que seu marido não fazia o seu papel social de provedor da casa, de manutenção da vida daquela família, ela tinha o direito de tomar seu dote de volta e ir para a casa dos pais. Obviamente o caso era analisado pelos anciãos da comunidade antes de ser definida a possibilidade de retorno à casa do pai.

O Código de Hamurabi era inovador quanto a figura da feminina, que passa a poder reivindicar direitos. Até então as mulheres não eram consideradas como cidadãs, e por isso não tinham nenhum direito tipificado.

Privilégios para os nobres

Esse é o conjunto de leis mais antigo conhecido e traz privilégios bem definidos cedidos aos grupos poderosos – os nobres – reconhecendo e diferenciando os poderosos  das classes populares.

Assírios

Os assírios eram conhecidos pela força militar e estratégia violenta de guerra (Foto: depositphotos)

Os assírios dominaram durante séculos a região da Mesopotâmia. Seu poder de guerra foi sua grande marca, sendo os responsáveis pelo primeiro exército unificado que se tem registro. Eles criaram armas de combate, como a catapulta e o aríete, que servia para empurrar muralhas e abrir portões de cidades, e desenvolveram estratégias de artilharia, cavalaria e infantaria.

Uma vantagem militar é que os assírios já usavam o ferro, enquanto que outros povos ainda só utilizavam o bronze, tendo se especializado na metalurgia.

Violência

Um traço forte da dominação dos assírios é a crueldade, a tomada e manutenção do poder por meio do medo e da violência. Diziam que isso era um dom dado pelos deuses para que pudessem governar.

Eram expansionistas, tanto que além da região da Mesopotâmia, também dominaram o Egito. Se tornando o primeiro povo da Mesopotâmia que foi além da sua região, chegando ao Egito.

Educação

Além do militarismo e da violência empregada na dominação de outros povos, outra característica dos assírios era o valor que davam ao conhecimento. Foram eles os responsáveis por criar a primeira biblioteca da história. Ela foi fundada em Nínive, a capital dos assírios, e era cheia de tabletes de argila com escrita cuneiforme.

Embora entendamos como biblioteca, o primeiro sentido daquela estrutura era ser um arquivo para guardar informações sobre a contabilidade. Como povo dominador, cada região devia a eles um imposto, e essa era a forma de registro e organização usada.

Medos

Os medos dominaram a região onde depois esteve o império persa. Até 600 A. C., os persas eram uma tribo controlada por eles. O rei dos medos vai se associar ao rei da Babilônia, formando o segundo reinado babilônico.

Caldeus (2º Império Babilônico)

Ilustração dos Jardins da Babilônia

Representação do Jardim Suspenso da Babilônia (Foto: depositphotos)

Nabopolassar, rei da Babilônia se associou ao rei dos medos e dominaram o império dos assírios, exterminando a todos.

O filho de Nabopolassar é o Nabucodonosor, figura mais conhecida, e é quem constrói o Jardim Suspenso da Babilônia em homenagem a sua amada.

Nabucodonosor também ficou conhecido pelo episódio do cativeiro da Babilônia, quando liderou seu exército para a captura dos judeus na Palestina, tornando-os escravos de seu reino. Ele destruiu o primeiro templo de Salomão, aonde estava guardada a ara da aliança e as tábuas da lei.

Ascensão dos persas

Depois da morte de Nabuconodosor, o império persa ascende e domina a região. Ciro I, grande imperador persa, foi quem libertou o povo judeu e reconduziu à Palestina.

Referências

» SANTOS, Antônio Ramos dos. A historiografia e o tempo na Mesopotâmia, Cultura, Vol. 23, 2006.

» WOODHEAD, Henry (Dir.). A era dos reis divinos: 3000-1500 a.C. Tradução: Cláudio Marcondes e Adília Belloti. Rio de Janeiro: Cidade Cultural, 1989.

Sobre o autor

Prof. Larissa Dutra
Historiadora e professora, com formação pela UNESA do Rio de Janeiro. Pós-graduada em edição editorial. Trabalha no ensino básico, cursinhos, ministra oficinas, é revisora e editora de livros. Sua pesquisa central é sobre livros, cinema e ditadura militar na América Latina.