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Estudantes mortos durante a ditadura

Jovens tiveram um peso importante na luta pela democracia e pagaram por isso

No Brasil, muitos estudantes mortos durante a ditadura somam-se à lista negra dos militares. Os anos de ferro e chumbo, entre 1964-1985, foram difíceis para a imprensa e líderes envolvidos com o movimento político e social, em especial, para o movimento estudantil brasileiro.

Ele foi um grande protagonista na luta pela democracia. Por isso mesmo foi vítima da repressão e tortura na ditadura militar. Para você ter uma ideia, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade (CNV), foram 434 mortes e desaparecimentos.

Esse número fez parte de um levantamento feito pela Comissão Nacional da Verdade que foi instalada em 2012 por meio da Lei 12.528/2011. Antes dessa comissão, somente a Lei da Anistia tratava do assunto. Conheça mais quem foram os estudantes mortos por conta de um ideal.

Por que estudantes foram mortos em protestos

Os jovens na ditadura militar tiveram um peso importante na luta pelo direito à democracia. Isso porque a juventude tem dentro si uma aptidão natural para os desafios e também para a inconformidade. São eles que formam a força pungente de uma nação. Podemos ver a herança dos jovens nas mais importantes revoluções do mundo.

O que dizer das manifestações de Maio de 1968, movimento que nasceu da inspiração de jovens estudantes franceses da Universidade de Nanterre e que contagiou o mundo?

Diante disso, as mortes dos estudantes em protestos tornaram-se emblemáticas. Eles foram vítimas da intolerância das autoridades que fizeram uso da repressão, violência armada e tortura para calar e acabar com a vida de alguns líderes ou integrantes dos movimentos.

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Durante a ditadura militar brasileira, os jovens tiveram um papel crucial no combate à repressão e violência. Por conta disso, a maior parte dos mais de 400 mortos e desaparecidos são pessoas no auge da sua juventude.

Estudantes brasileiros mortos em protestos

Durante o período macabro vivido pelo nosso país, entre anos de 1964 a 1985, muitos estudantes foram perseguidos, isolados e, alguns, mortos. Conheça a história de alguns deles:

Carlos Eduardo Pires Fleury (1945-1971)

Estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo e de Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC, Carlos Eduardo era militante da Ação Libertadora Nacional, a ALN, e do Movimento de Libertação Popular.

(Foto: Reprodução | Comissão da Verdade/SP)

Ele chegou a ser preso e torturado em 1969. Um ano depois, ele foi exilado para a Argélia, logo depois do sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, no Rio de Janeiro. Em seguida, ele foi para Cuba.

Não se sabe ao certo quando ele voltou para o Brasil clandestinamente. O certo é que em 11 de dezembro de 1971, ele foi encontrado morto dentro de um carro com um tiro, após supostamente trocar tiros com os órgãos de segurança.

Cilon Cunha Brum (1946-1974)

Estudava economia na PUC, a Pontifícia Universidade Católica. Ele era do movimento estudantil. Antes de desaparecer, Cilon revelou para sua família que estava sendo perseguido pela repressão política.

(Foto: Reprodução | Comissão da Verdade/SP)

Durante seu período de militância, ele participou de movimento de guerrilha na região próxima ao rio Araguaia, que fica distribuída pelos estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará.

Sua participação no episódio conhecido como ‘Osvaldão’ onde foi assassinado o primeiro militar pelos guerrilheiros ainda é uma suspeita. E, provavelmente, foi isso que ceifou a sua vida. Cilon Cunha Brum estava preso em um acampamento no meio do mato, em Xambioá, em Tocantins. Relatos da Comissão da Verdade dizem que ele desapareceu em fevereiro de 1974.

José Wilson Lessa Sabbag (1943-1969)

José Wilson Lessa Sabbag morreu aos 26 anos. Ele era estudante de Direito da PUC, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

(Foto: Reprodução | Comissão da Verdade/SP)

Por conta da sua militância estudantil, ele foi preso durante o 30º Congresso da UNE, quando passou 2 meses na cadeia. Ao sair de lá, ele não voltou para a universidade, nem para o seu antigo emprego, por medo da perseguição.

Ele atuava como guerrilheiro e militante da Ação Libertadora Nacional, quando em 3 de setembro de 1969, ele foi fuzilado pelo Dops, o Departamento de Ordem Política e Social, e Cenimar, o Centro de Informações da Marinha.

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O ato de violência aconteceu, pois José Wilson Lessa Sabbag tentou fugir da abordagem policial, por isso, foi morto.

Luiz Almeida Araújo (1943-1971)

Luiz Almeida Araújo desapareceu aos 28 anos. Nascido no estado do Alagoas, no Nordeste, ele se mudou para a capital paulista aos 14 anos. Já muito jovem atuava no movimento estudantil e aos 21 anos veio sua primeira prisão.

(Foto: Reprodução | Comissão da Verdade/SP)

Em 1966, tornou-se estudante de sociologia na PUC, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ele chegou a viajar para o Chile e Cuba, consideradas as escolas para a militância. Ele também exercia atividades culturais e escrevia peças até se juntar de vez à luta armada com a ALN.

Em 24 de junho de 1971, Luiz Almeida Araújo estava no carro pela Avenida Angélica em São Paulo e foi sequestrado. Depois disso, o militante nunca mais foi visto e é considerado oficialmente como morto pela repressão militar.

Maria Augusta Thomaz (1947-1973)

Aos 26 anos, Maria Augusta Thomaz desapareceu. A jovem estudava no Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo e foi indiciada e presa por participar no 30º congresso da UNE em Ibiúna, que ocorreu clandestinamente em 1968.

(Foto: Reprodução | Comissão da Verdade/SP)

Seu namorado à época José Wilson Lessa Sabbag foi assassinato pela ditadura militar e, depois disso, Augusta passou a viver escondida. Chegou a ir para Cuba participar de treinamento de guerrilhas. Ao voltar clandestinamente para o Brasil, ela integrou a Molipo, o Movimento de Libertação Popular, no estado de Goiás.

Relatos dão conta de que a mulher foi morta em uma fazenda entre as cidades de Rio Verde e Jataí em 1973. Mas até hoje seu corpo nunca foi encontrado.

Quantas pessoas foram torturadas na ditadura

É difícil mensurar o número de pessoas que foram torturadas nos anos de chumbo brasileiro. No entanto, a Comissão da Verdade estima que 200 mil pessoas foram perseguidas durante a ditadura militar. Incluídos nesse número estão os presos políticos, os profissionais demitidos e também torturados.

Durante os anos de 1964 a 1985, o Brasil viveu um período macabro da história nacional. Os anos da ditadura militar deixaram milhares de pessoas marcadas, tanto fisicamente quanto psicologicamente. E por mais doloroso que seja é preciso lembrar dessa época para que os erros do passado não mais aconteçam.

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Os estudantes mortos durante a ditadura não podem ser esquecidos. Eles são a memória viva da luta pela democracia que vivemos hoje. 

Sobre o autor

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Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba com especialização em Comunicação Empresarial. Passagens pelas redações da BandNews e BandSports, TV Jornal e assessoria de imprensa de órgãos públicos.