Biografia de Cora Coralina

Cora Coralina foi uma poetisa e contista brasileira que só se tornou conhecida quando idosa, já com quase 80 anos de idade. Mesmo assim, ela é considerada um dos mais importantes nomes da literatura nacional, com suas obras sendo estudadas até hoje.

Neste artigo você vai conhecer mais sobre a poetisa, suas principais obras, quando veio o reconhecimento e a biografia de Aninha, como também era chamada pela família e amigos.

Quem foi Cora Coralina?

Cora Coralina foi o pseudônimo de Ana Lins Dos Guimarães Peixoto Bretas. Ela nasceu em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás, antiga capital do estado na época do império.

Filha do desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto e Jacyntha Luíza do Couto Brandão. Cora Coralina estudou apenas até a terceira série do ensino fundamental, o que é o equivalente ao quarto ano da educação básica.

Imagem de Cora Coralina

Cora Coralina era o pseudônimo de Ana Lins Dos Guimarães Peixoto Bretas (Foto: Reprodução | Curta Mais)

Muita gente acredita na história de que a poetisa começou a escrever apenas na velhice. No entanto, ela entrou no mundo da literatura aos 14 anos de idade. Em 1905, aos 16 anos, ela enviou uma crônica para o jornal do Rio de Janeiro, “Tribuna Espírita”.

Três anos mais tarde criou o jornal de poemas femininos “A Rosa”. O primeiro conto, chamado de “Tragédia da Roça”, foi publicado no ano de 1910, no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás. Nesta mesma época há registros de publicações de crônicas e contos da poetisa em vários jornais do estado.

Como já tinha reconhecimento regional, ela chegou a ser convidada à participar da semana de arte moderna, em 1922. No entanto foi impedida pelo marido. Coralina permaneceu muitos anos cuidando apenas da família e fazendo doces, mas voltou à trabalhar em 1934, quando ficou viúva.

A partir daí ela passou a ser colaboradora do jornal “O estado de São Paulo” e a ser vendedora de livros na editora José Olympio. Já com 70 anos de idade, a poetisa começou a aprender datilografia e realizou a primeira publicação cinco anos depois.

No entanto, só ganhou reconhecimento com 80 anos de idade. Isso fez com que se propagasse o mito de que ela só começou a escrever na velhice.

Biografia da poetisa

Nascida em 1889, na cidade de Goiás, Cora Coralina é hoje um dos maiores nomes da literatura brasileira. Foi criada durante a primeira parte da vida na cidade em que nasceu.

Em 1911, aos 22 anos de idade se casou com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, que era 22 anos mais velhos que ela. O casal fugiu e foi morar na cidade de Jaboticabal, no interior de São Paulo.

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Lá, o casal teve seis filhos. Em 1924 a família se mudou para a capital do estado, onde Cora morou pela maior parte da sua vida. Em 1934, aos 45 anos, ela ficou viúva e precisou começar a trabalhar para sustentar a família. Com isso ela foi colaboradora do principal jornal do estado e começou a vender livros.

Esse trabalho reacendeu sua paixão pela literatura, no entanto a primeira publicação só iria se tornar realidade 30 anos mais tarde. O primeiro livro da autora foi publicado pela editora em que ela trabalhava em 1965.

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais” foi enviado pela poetisa para vários autores nacionais de sucesso. Um deles sendo o famoso escritor Carlos Drummond de Andrade.

Ele classificou a obra como um livro comovedor e passou a chamar Cora Coralina de Diamante goiano. Com isso ela ganhou projeção nacional e teve o livro republicado em 1978.

Nos últimos anos de vida a poetisa ganhou o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal de Goiás, em 1973. Já em 1983 ela ganhou o prêmio Juca Pato de intelectual do ano.

Cora morreu em Goiânia, no seu estado natal, em 1985, aos 96 anos, por causa de complicações da pneumonia. A casa onde ela nasceu é hoje um museu que guarda os primeiros manuscritos e obras da famosa poetisa.

Primeiro livro publicado e reconhecimento

O primeiro livro publicado por Cora Coralina foi “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais” em 1975, pela editora José Olympio.

O nome Cora Coralina foi criado ainda na adolescência, aos 14 anos, quando ela começou a escrever. O significado do nome seria “coração vermelho” em homenagem ao rio que cruza a cidade natal dela.

Com a publicação em mãos, a poetisa enviou exemplares para diversos autores brasileiros de renome. Um deles foi Carlos Drummond de Andrade, que é tido como principal responsável pelo reconhecimento do público da época.

A principio, ela ganhou destaque e reconhecimento apenas a nível regional, mas isso mudou cinco anos após a publicação. Ele falou em uma publicação de um jornal, em 1980, sobre o livro publicado pela autora. Tendo chamado a obra de comovente e com uma linguagem simples e singela.

Após esse fato, a poetisa ganhou projeção nacional e passou a ser convidada para palestras, premiações e programas de TV. Durante a sua vida, Cora Coralina publicou outro livro em 1976.

Após a fama nacional, ela publicou outras obras em 1983 e em 1985, ano da sua morte, o livro “Estórias da casa velha da ponte”. No entanto, a carreira da poetisa não acabou com a sua morte. Nos anos seguintes foram publicadas mais cinco obras com poemas inéditos de Cora Coralina.

A visão de idosa frágil que começou a escrever tardiamente, se contrastava com as opiniões e língua afiada da poetisa.

Em 1999, a sua primeira publicação, foi considerada como sendo uma das 20 obras mais importantes de todo o século 20. Esse reconhecimento foi o último passo que transformou Cora em um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

Principais poemas  

Durante toda a sua vida Cora Coralina escreveu diversos poemas que se transformaram em obras importantes da literatura nacional. Neste artigo você vai ver alguns exemplos dos que são considerados os melhores poemas escritos pela poetisa.

Mulher da vida

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

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Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Meu destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…

O cântico da terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Livros publicados

O primeiro livro da poetisa foi “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”, publicado em 1965 pela editora José Olympio. Em 1978, ele teve uma segunda remessa. Dessa vez organizada pela Universidade Federal de Goiás.

Dois anos antes, em 1976, Coralina havia publicado o livro de poesia “Meu livro de Cordel”. Em 1983, outro livro de poesia foi publicado. A obra foi chamada de “Vintém de cobre – Meias confissões de Aninha”. Essa era a forma como a poetisa chamava a si mesma, portanto é uma obra de caráter mais pessoal.

O último de Cora Coralina que foi publicado em vida foi “Estórias da casa velha da ponte”. Ao contrário de todos os primeiros, este reunia os contos que foram escritos por ela durante a sua vida.

Após a morte da poetisa, a família ficou responsável por todos os seus manuscritos inéditos. Com isso, mais cinco livros foram publicados de maneira póstuma.

O primeiro chamado de “Meninos verdes” foi um livro infantil, que foi publicado um ano após a morte da autora. Em 1996, foi publicada a obra de poesias “Tesouro da cada velha”.

Já em 2001, o livro também de poesia “Vila boa de Goiás” e a última obra com escritos inéditos de Cora Coralina foi publicada em 2002. O livro “O prato azul-pombinho” é voltado para o público infantil, sendo estudado até hoje.

Retalhos é de Cora Coralina?

Desde 2013, quando o poema “Sou feita de retalhos” foi postado na rede social Facebook, a autoria foi atribuída a poetisa Cora Coralina. No entanto, a casa museu que guarda os manuscritos dela informa que essa atribuição é errônea.

Muitos poemas têm sido atribuídos a ela ao longo dos anos. No entanto, boa parte deles foram escritos por outras pessoas.

Sendo assim, o poema sou feita de retalhos foi escrito pela paulista Cris Pizziment. A mesma que fez a publicação original nas redes sociais e que viralizou o escrito. Confira aqui o poema que ainda hoje é atribuído a poetisa brasileira.

Sou feita de retalhos

Sou feita de retalhos. Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.

Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior… Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade… Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.

E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados… Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma.

Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer minha história com os retalhos deixados em mim. Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias.

E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de ‘nós’.

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Frases mais famosas da poetisa

Separamos aqui algumas frases famosas ditas por Cora Coralina que deixaram marcados os pensamentos da poetisa sobre diversos aspectos da vida. Confira aqui algumas das mais célebres e famosas citações dela.

Mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros.”

Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores.”

Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”

É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.

Sobre o autor

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Jornalista (MTB-PE: 6770) com formação completa no curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo (UniFavip-DeVry). Experiência prática de dois anos em produção jornalística para TV e rádio.