Biografia de Getúlio Vargas

O político conhecido como "pai dos pobres" foi presidente do Brasil por duas vezes

A biografia de Getúlio Vargas é marcada por grandes reviravoltas. Não é à toa que estamos falando do ex-presidente do Brasil. De militar, ele chegou a governar o Brasil por dois mandados.

Polêmico, ele era amado por uns e odiados por outro. Em sua gestão, o Brasil avançou economicamente, porém retrocedeu no campo da liberdade. Saiba mais agora sobre esse presidente que acabou tirando a própria vida.

Biografia de Getúlio Vargas: vida pessoal

Getúlio Dornelles Vargas nasceu São Borja, no estado do Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1883. Seus pais chamavam-se Manuel do Nascimento Vargas e Cândida Dornelles Vargas.

Ele se formou no primário em São Borja e em 1897 partiu para Ouro Preto, no estado de Minas Gerais para ficar na companhia dos irmãos que moravam na cidade, à época capital do estado mineiro.

Esse período foi curto, pois toda a família decidiu voltar para o RS. De volta à terra natal, Vargas decidiu entrar para o exército por meio do 6º Batalhão de Infantaria e, posteriormente, seguiu para o 25º Batalhão de Infantaria na capital do Estado.

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas foi presidente do Brasil por 15 anos (Foto: Reprodução | Wikimedia Commons)

Durante a carreira militar, serviu em Mato Grosso na fronteira com a Bolívia e chegou a ser sargento, vindo a encerrar sua carreira nas forças armadas em 1903. A partir disso, dedicou-se ao estudo do Direito na Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Foi então que Vargas dava os primeiros passos para a vida política. Sempre com uma oratória impecável, ele se destacava frente aos colegas ao proferir discursos e saudações, inclusive a políticos.

Carreira política

Getúlio Vargas tornou-se deputado estadual e teve o mandato prorrogado entre 1909-1912; e 1917-1921 pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Em outubro de 1922, ele chegou à Câmara dos Deputados e, em 1924, foi reeleito deputado federal até 1926.

Nesse mesmo ano, o Presidente Washington Luís Pereira de Sousa nomeou-o como Ministro da Fazenda. Em 1927, Vargas se candidatou a governador do estado do Rio Grande do Sul.

Só permaneceu no cargo por 2 anos pois foi convidado para ser candidato a presidente. Seu adversário seria Júlio Prestes. Em 1929, ele lançou-se candidato junto a João Pessoa pela Aliança Liberal.

A dupla perdeu para o candidato Júlio Prestes, e Vargas voltou para o governo do Rio Grande do Sul. Nos bastidores, ele articulou a deposição do presidente Washington Luís, antes mesmo de acabar o seu mandado para que Júlio Prestes nem assumisse o poder.

O partido de Vargas acusava as eleições de fraude e não aceitava a derrota. Além disso, o assassinato do seu vice, João Pessoa, acirrou ainda mais os ânimos dos concorrentes, que fizeram de tudo para Prestes não assumir a cadeira de presidente da República. É o que a história do Brasil chama de Revolução de 1930.

Revolução de 1930

A Aliança Liberal não se conformou com o resultado nas urnas e juntou-se ao restante da oposição para depor o presidente à época Washington Luís. A ideia era tomar o poder do governo que estava encerrando, antes mesmo de Júlio Prestes assumir.

Dessa forma, em 24 de outubro de 1930 tinha início a Junta Governativa que faria de Getúlio Vargas o chefe do Governo Provisório, cargo que exerceu até 16 de julho de 1934, ano que houve a promulgação da Constituição de 1934. A qual o elegeu presidente da República pela Assembleia Constituinte.

Três anos mais tarde, ele fechou o Congresso Nacional e instituíram o Estado Novo, tendo como líder Getúlio Vargas. Esse foi o período de ditadura que permaneceu até 29 de outubro de 1945, ano da sua deposição.

Um ano depois elegeu-se senador e, em 1950, foi candidato à presidência da república, vencendo o pleito. Em 1954, ele terminaria sua vida política e pessoal, ao suicidar-se, no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1954.

Vargas como presidente

Vargas foi presidente do Brasil durante 15 anos. A primeira fase do seu mandato foi mais liberal e se estendeu até 1937. Depois disso, veio um governo autoritário.

Em sua biografia conta a favor uma série de leis trabalhistas, como o “estabelecimento da jornada diária de oito horas de trabalho na indústria e no comércio, a regulamentação do trabalho feminino e dos menores nos estabelecimentos comerciais e industriais, a instituição da carteira profissional, do salário mínimo e das comissões mistas de conciliação, além de outras leis que incidiram sobre a organização sindical e patronal”.

Durante sua gestão também foram criados os ministérios da Educação e Saúde Pública, da Agricultura, e do Trabalho, Indústria e Comércio.

Foi Vargas também que criou o Departamento Nacional do Café (DNC), o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e incentivou a realização de manifestações nacionalistas.

Na economia, o Brasil também foi abalado pela crise de 1929 e assim permaneceria até o início da década de 40 quando a indústria começou a crescer. Durante a segunda guerra mundial, o Brasil enviou tropas a pedido dos Estados Unidos que, em troca, acabaram patrocinando o desenvolvimento da Usina Siderúrgica de Volta Redonda.

Nos primeiros anos da década de 40, Vargas foi duramente pressionado para o retorno da democracia e, aos poucos, anistiava aqueles que estavam condenados. Ele promoveu a Assembleia Nacional Constituinte que estabelecia, entre outras coisas, eleições presidenciais.

Apesar de forte campanha que ficou conhecida como “queremismo”, que nada mais era do que o desejo de uma parcela da população que Vargas permanecesse no poder, isso não aconteceu e ele foi deposto em 1945.

Segundo mandato como presidente

Em 3 de outubro de 1950, Getúlio Vargas foi reeleito presidente. Marcou essa época uma política econômica de tendência nacionalista e de crescimento econômico.

De acordo com o a Biblioteca da Presidência da Republica, essa gestão foi marcada por “duas diretrizes que visavam à superação do estágio de desenvolvimento brasileiro: por um lado, a participação decisiva do Estado e de setores privados nacionais no processo de industrialização e, por outro, o estímulo à entrada de capital estrangeiro”.

Além disso, foi sancionada uma nova lei do salário mínimo, com o aumento de aproximadamente 300% sobre o nível anterior. Também foram criados nessa época o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), a Petrobrás, a Sudam e o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC).

Porém, o Brasil enfrentava graves crises, como lembra o site oficial da Biblioteca da Presidência da República: “O Brasil enfrentava uma tendência inflacionária, derivada do aumento das divisas geradas pelos altos preços alcançados pelo café no mercado internacional, expandindo a quantidade de moeda em circulação. A inflação decorria, também, do endividamento com as importações promovidas por receio de uma crise internacional que se anunciaria com a guerra da Coréia. Finalmente, um outro problema com que se defrontava o país era relativo ao próprio crescimento industrial, incompatível com a estrutura energética e de transportes então existente”.

Todos esses problemas agravavam o quadro nacional. O atentado contra o jornalista Carlos Lacerda no Rio de Janeiro que acabou com a morte do major-aviador Rubens Vaz, aumentaria a crise no governo, já que Lacerda fazia grande oposição a Vargas.

Em meio a pressão da oposição, dos militares e dos empresários (que sofriam os impactos das leis trabalhistas), Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954.

Ele deixou uma carta-testamento na qual dizia que o seu ato era resultado do fracasso em relação à política econômica, como explica a artigo da Biblioteca da Presidência da República: “O recurso à emissão monetária desequilibrou as alianças políticas do governo, tanto em relação aos trabalhadores, quanto aos setores da elite que o sustentava, receosa dos efeitos que a política trabalhista poderia gerar”.

Sensibilização pós-morte

Com o seu suicídio, Vargas atraiu o apoio popular que não estava tendo em vida. O povo o nomeou “pai dos pobres”, apelido que permanece na memória de muitos até hoje.

A sua carta-testamento foi amplamente divulgada e hoje é possível ter acesso à integra da sua despedida. Confira agora.

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto.

Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto.

Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado.

Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado.

Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.

Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.

Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”.

Academia de letras

Vargas também ocupou uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Ele foi o terceiro ocupante da Cadeira 37. Em 1943, ele tomou posse. Embora, sem carreira literária, sua participação se deu por conta do patrocínio de alguns membros da Academia. Para isso, foram levados em consideração seus discursos políticos.

De acordo com a página oficial da Academia Brasileira de Letras, Getúlio Vargas proferiu o seguinte trecho do discurso: “A atividade intelectual é para mim uma imposição da vida política, que exige de quem a ela se consagra a obrigação de comunicar-se com o público com precisão e clareza, explicando ideias e problemas de governo, esforçando-se para fazer-se ouvir e compreender.”

Sobre o autor

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Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba com especialização em Comunicação Empresarial. Passagens pelas redações da BandNews e BandSports, TV Jornal e assessoria de imprensa de órgãos públicos.