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Calígula: a história do imperador mais louco de Roma

Bisneto de Augusto César, o primeiro imperador de Roma, Calígula era a esperança de Roma quando ascendeu ao trono, com apenas 24 anos de idade. Ele foi um notável imperador romano, sendo inclusive conhecido como um dos mais controversos que já existiram.

Ele governou logo no primeiro século depois de Cristo, menos de vinte anos da morte do próprio Jesus Cristo, a partir de 16 de março de 37 até ao seu assassinato, em 24 de janeiro de 41.

Roma dominava mais de cinco milhões de metros quadrados em torno do Mar Mediterrâneo, era rica e continuava em expansão. Para se ter ideia do tamanho do império romano, a cada quatro habitantes, um era romano. Calígula se tornou o terceiro imperador do maior império do mundo.

Busto de Calígula

Calígula foi o terceiro imperador de Roma (Foto: depositphotos)

Seu governo durou menos que quatro anos, mas seus hábitos extravagantes, sua devassidão e tirania lhe tornaram um dos governantes mais lembrados de Roma.

A origem de Calígula

O pai de Calígula, Gaius Julius Caesar Germanicus, foi um dos mais importantes e populares generais de Roma, sua mãe era neta direta do primeiro imperador de Roma. Ele acompanhava o pai nos destacamentos aonde estavam os soldados, sendo reconhecidos por todos. Foi ali que Caio Júlio César Augusto Germânico ganhou o apelido de Calígula, em referência a suas pequenas botas.

Ele e sua família viviam onde hoje fica a fronteira da Síria. Seu pai estava sempre em missão e sua popularidade passou a incomodar o imperador Tibério, tio-avô de Calígula. Aos sete anos de idade, Calígula perde o pai, vítima de envenenamento.

Hoje, sabe-se que a morte foi a mando do imperador. Os assassinatos eram uma prática recorrente dos governantes de Roma para a manutenção do mandato, matando inclusive descentes diretos quando a população reivindicada o nome de um sucessor.

Tibério continuou a perseguir a família de Calígula, tendo prendido sua mãe e seu irmão mais velho em um lugar isolado, sem água nem comida. Sua mãe morreu de fome e seu irmão se suicidou. O irmão do meio foi preso em uma cela embaixo do palácio, sem comida, tentou comer o próprio colchão e morreu.

Os assassinatos em Roma eram sempre cruéis porque carregavam a mensagem de que nada poderia ameaçar o poder do imperador. Em meio a matança, Calígula foi poupado por ser muito jovem.

Calígula e o poder

Durante muitos séculos o senado assumiu uma função importante, sendo responsável pelo comando de Roma e por isso era formado por homens de famílias nobres. Até que o imperador Augusto César assumiu o comando do senado e de toda Roma. A partir de então todo comando era apenas do imperador.

Augusto César governou por 41 anos e tornou Roma um lugar pacífico e organizado. Seu filho adotivo, Tibério, foi o sucessor do seu trono e governou Roma por 23 anos. Mas não foi amado pelo povo devido às suas medidas impopulares, como o corte dos espetáculos públicos e o aumento de impostos para as classes baixas.

Sucessão do trono

Quando completou 17 anos, Tibério convocou Calígula para o seu palácio em Capri. Num primeiro momento, o chamado ao palácio causou temor quanto a sua vida, no entanto a convocação visava prepará-lo para a sucessão do trono.

Em Capri, Calígula aprendia a se comportar e o que fazer enquanto imperador de Roma. No entanto, era nesse palácio que o imperador desfrutava das coisas mais inusitadas possíveis longe do comando do senado. 

Morte de Tibério

Muito estrategista, Calígula buscou se aproximar da maior força de Roma, a guarda pretoriana (junção de militares com os serviços civis secretos). Prometendo poder durante o seu governo, Calígula se aliou ao comandante desse exército, o general Macro, que fazia a sua segurança.

A maior suposição sobre a morte do imperador Tibério é a de que Calígula o asfixiou na cama. Macro teria lhe dado cobertura. Após a morte de Tibério, Calígula foi coroado imperador de Roma.

E é sob a guarda dos pretorianos que ele chega ao senado romano.

O governo de Calígula

O sucessor do trono do impopular Tibério era a grande esperança do povo e do senado também. Calígula chegou ao parlamento para legitimar a sua posse em uma procissão pela via Ápia, mais importante rua de Roma. Durante o trajeto à cúria do senado, o povo o aclamava.

Aliados

Sua primeira medida como imperador foi comprar a lealdade da guarda pretoriana presenteando-a com grande quantia em dinheiro e altos cargos no governo.

Para conseguir o amor da população, ele também distribuiu dinheiro, mas mostrando já traços da sua personalidade de fato. Calígula subiu até a torre da Basílica de Roma e jogou moedas ao povo, machucando quem era acertado e fazendo com que se pisoteassem até a morte

Para ganhar o senado, Calígula cancelou todas as acusações de traição instituídas por Tibério e colocou fogo em todos os processos. Esse ato fez com que o senado concedesse a maior honra que um imperador poderia ter, o título de pater patriae, pai da pátria.

Para fortalecer sua imagem, ele adotou o neto de Tibério, Gemelo de 14 anos, tornando-o herdeiro.

Vingança

Nos primeiros meses do seu governo Calígula adoeceu, ficando semanas de cama. O império achou que ele morreria. Macro então passou a apoiar Gemelo e abandonou Calígula.

No entanto, Calígula se recupera e volta se vingando de todos que não esperavam pela sua recuperação.

Tendo percebido que um herdeiro por perto fazia com que o seu poder ficasse frágil, uma vez que sua morte seria sempre uma saída, Calígula manda a guarda prender Gemelo e exige que ele se mate, já que a guarda não podia derramar sangue real. Calígula promoveu Macro para prefeito do Egito, mas durante a sua transição, o imperador o prendeu por traição e o obriga a se matar.

Desse momento em diante, Calígula começou a mostrar seu lado obscuro, com ações que mesclavam entre a insanidade e a brutalidade.

Características do governo de Calígula

Calígula dá inicio ao que o tornou tão famoso na história: seu vício em excessos. Seus banquetes eram tão grandes que só um tinha o valor de toda a quantia destinada para o consumo do ano todo. Ele tomava um veneno que fazia com que conseguisse comer mais. Calígula esbanjava para obter prazer e a população amava isso.

Luxúria

Um dos marcos da figura de Calígula tinha relação com a relação incestuosa que mantinha com a irmã, Drusila. Ela tinha uma posição de destaque nos banquetes, sendo mimada e acariciada por ele na frente de todos.

Acreditava-se que eles mantinham um relacionamento íntimo, embora ela fosse casada com um amigo de Calígula. Sua devassidão não relevava nenhuma hierarquia.

Conta-se que a esposa de um senador encheu os olhos de Calígula, ele então os chamou para um banquete, oferta que nenhum súdito romano poderia recusar, em meio a reunião a levou para seus aposentos e a obrigou a ter relação íntima com ele. Depois contou aos senhores sentados à mesa sobre como teria sido.

Crueldade

Roma tinha uma cultura extremamente violenta. Um dos espetáculos que mais gerava público eram as execuções públicas. De mesmo valor eram as lutas até a morte, que tinham expressiva relevância.

Nas lutas de gladiadores, visando aumentar ainda mais a violência, Calígula deu a um jogador espada e escudo e para o outro, apenas um pedaço de pano.

Também instituiu os jogos com animais selvagens, como leões, que eram jogados na arena com presos que deveriam correr para salvar as suas vidas. Também importou animais selvagens de todo o mundo, mas a comida para esses animais ficava um pouco escassa e para não desprender mais orçamento imperial, ele ordenou que alimentassem os bichos com os presos.

Hobbies

Ele também adorava teatro, sempre entrando em cena atuando em todos os papéis da peça. Um dos incômodos do senado eram as pessoas que ele mantinha por perto, como os atores, que não eram bem reconhecidos na época.

Os jogos de corrida de cavalos eram a paixão de Calígula. Por isso ele beneficiava os criadores dos bichos e até criou uma arena particular para as suas corridas.

Morte da irmã

Após pouco mais de um ano do seu governo, a irmã de Calígula adoece e morre. Em um ato inédito em Roma, ele a consagra deusa, título que nenhuma mulher romana tinha recebido.

Atrito com o senado

Com todos os excessos, andando com as pessoas que eram consideradas baixas, Calígula entra em acirramento com o senado. Sem poder extinguir o senado, ele convoca uma reunião e discursa dizendo que eles eram hipócritas e tira do bolso os papéis de traição que havia dito que tinha queimado e retomou os processos de delação. No dia seguinte, o senado se rendeu.

A humilhação não cessou. Para mostrar o seu poder, Calígula tirou os privilégios do senado: trocou suas roupas por vestes curtas como as dos escravos, colocou-os para andar do lado do carro imperial, tirou seus lugares privilegiados nos espetáculos e nomeou seu cavalo como cônsul, título almejado por um senador.

Casamento

Na metade de seu governo, Calígula se casa com uma nobre que estava grávida de oito meses. Até hoje não se sabe se era dele o bebê que ela esperava. Nasce então uma menina, nomeada de Drusila, como a irmã que morreu.

A queda do governo de Calígula

Como Calígula tinha desonrado a classe alta, uma conspiração começou a ser feita contra ele. Alguns cônsules articulavam seu assassinato. Ao saber disso, com a justificativa que eles não haviam honrado o aniversário do imperador, coisa considerada inadmissível na época, Calígula manda a guarda prender os nobres, e eles são obrigados a se matarem.

Mas a conspiração também se concentrava na sua família, que queria a sua morte antes que ele tivesse um herdeiro homem. Suas irmãs e seu cunhado haviam planejado tudo. Ao saber disso, Calígula manda matar o cunhado e faz com que sua irmã caminhe quase 200 km com as cinzas dele. Ele exilou as irmãs na mesma ilha que Tibério tinha mandado a mãe deles para morrer.

Sua irmã Agripina não morre e será a mãe de um dos imperadores mais famosos do mundo, Nero.

Fracasso no exército

Para continuar no poder, Calígula tinha que se mostrar um bom comandante no exército. Os romanos respeitavam seus generais acima de tudo. Então ele segue para o norte com o exército, na intenção de invadir a Britânia. A investida foi fracassada, mas ele mandava notícias como se tivesse sido bem-sucedida.

O triunfo de honra era uma das maiores honrarias que um imperador podia ter ao retorno de uma guerra, e Calígula exigia isso. O senado era quem poderia dar essa honraria e não fizeram.

Esnobando o senado romano, Calígula fez a sua própria honraria, chamando o exército para fechar bordeis e faz uma festa sem controle bem as vistas dos aristocratas.

Tirania

Com várias conspirações contra a sua vida, Calígula mandou construir barcos onde se resguardava em forma de proteção e passou a evitar Roma, marchando em direção ao norte junto com o exército.

No seu aniversário de 27 anos ele retorna e promete vingança. Qualquer um que falasse mal do imperador era morto e os que conspiravam contra ele eram torturados.

Ele confiscou propriedades e fortunas dos senadores condenados por traição. A medida era de seu interesse uma vez que a vida extravagante que levava havia esvaziado os cofres imperiais. Ele também transformou seus servos em aliados particulares, tendo papel de maior importância que senadores e nobres.

Em pouco mais de 1.300 dias de governo, Calígula passa de imperador amado para imperador tirano. Qualquer um poderia ser morto. Sua fala mais lembrada é “deixem que me odeiem, deixem que me temam”.

Morte de Calígula

Calígula queria ser considerado um deus. Ele queria ser adorado como um faraó. Para isso, se sentava no meio dos dois maiores deuses de Roma, então quando adoravam aos deuses, adoravam a ele também.

Ele construiu um templo para si mesmo com uma estátua de ouro. Nesse templo havia sacrifícios e sacerdotes. E se declarou um deus vivo. Ele tentou colocar uma estátua dele no local mais sagrado de Roma, mas foi impedido. A população ficou completamente insatisfeita com esse desrespeito.

Calígula então decide se mudar para Alexandria, no Egito, e anunciou que os senadores não poderiam pisar lá. Alexandria seria a capital de Roma sem o senado. Essa decisão faz aumentar as conspirações para sua morte.

A morte de Calígula visava, sobretudo, restabelecer o poder do senado. A guarda pretoriana também perderia poder se a capital mudasse. E foi ela que comandou a operação, a partir do seu general, Cássio Quereia.

Conspiração

Os jogos palatinos anuais aconteciam uma vez ao ano, próximo ao palácio de Calígula. Depois de acompanhar algumas partidas, ele decidiu voltar para o palácio. Quereia o seguiu e, no caminho, o interceptou. Senadores e demais conspiradores apareceram e o esfaquearam.

Os senadores se reuniram em frente ao palácio e a guarda pretoriana executou toda a família de Calígula. O tio Cláudio foi o único a ser poupado e foi proclamado imperador, impedindo, assim, o retorno da república.

Resumo do Conteúdo
Nesse texto você aprendeu que:

  • O nome de Calígula era Caio Júlio César Augusto Germânico.
  • Seu pai foi general de Roma e sua mãe era neta do 1º imperador de Roma.
  • Seus pais e dois irmãos foram mortos enquanto ele era criança.
  • O imperador Tibério escolheu ele como sucessor.
  • Calígula governou por quase 4 anos.
  • Ele mantinha relação incestuosa com a irmã, Drusila.
  • Seu governo foi marcado por excessos e tirania.
  • Calígula foi morto por senadores e pela guarda pretoriana.

Exercícios resolvidos

1- Quem foi Calígula?
R: Calígula foi o terceiro imperador de Roma.
2- Por quanto tempo Calígula governou?
R: Por quase 4 anos, de março de 37 a janeiro de 41.
3- Calígula foi o sucessor de qual imperador?
R: Tibério.
4- Qual a marca do governo de Calígula?
R: Vingança, luxúria e tirania.
5- Como Calígula morreu?
R: Senadores e a guarda pretoriana conspiraram a sua morte, esfaqueando-o no seu trajeto para o palácio.
Referências

» WINTERLING, Aloys. Loucura imperial na Roma antiga. História [online]. 2012, vol.31, n.1, pp.4-26.

» Massie, Allan. Calígula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

Sobre o autor

Prof. Larissa Dutra
Historiadora e professora, com formação pela UNESA do Rio de Janeiro. Pós-graduada em edição editorial. Trabalha no ensino básico, cursinhos, ministra oficinas, é revisora e editora de livros. Sua pesquisa central é sobre livros, cinema e ditadura militar na América Latina.